faria sentido pensar que aquela semana foi algo entre a moral & o profano. uma coisa de referências entre jane austen & only fans.
naqueles dias foi tudo rebuscado na esquecida razão de enfrentar tendências que a assombravam. com a luz amarela do quarto se sentiu protegida e sabe-se lá porque pensou na palavra égide. "sob a égide". aquele escudo que Atenas deu pra Zeus.
sob a égide da luz amarela do seu quarto experimentava depois de muito tempo essa sensação de ter na defesa uma arma. quanto tempo de guarda baixa e matando no peito, sempre cheio & estufado, toda a sorte de sentimentos alheios que a atravessavam e que de maneira cíclica acabavam no vazio sob a égide de ter se protegido, dessa maneira redundante mesmo, o peso do escudo era medido pelo estranhamento de se sentir, minimamente, segura. e era esse o momento crucial pro estar só - habitual & querido - virar solidão - temida & inconsequente. fazia muito tempo já que remediava traumas com o vício dos sentimentos. sempre pronta pro que der, vier & doer. essa repetição era quase uma obsessão. uma servidão ao bem estar das narrativas do outro, e para as dela só alguns pedaços de papel ou o aplicativo de notas do celular. os pensamentos tinham desaprendido o caminho de voltarem-se para ela. e olha que eram muitos pensamentos, um fluxo intenso ao ponto dela implorar que eles calassem a boca, mas no fim ela também fazia a vontade deles.
só naquela noite, finalmente, olhou pro portão e ficou feliz com a eminência de ninguém ali aparecer. sentiu um alívio na certeza de que não andaria por aquele corredor com a chave na mão. lembrou que horas antes, voltando da rua, sentiu a mesma felicidade quando fechou o portão que só abriria pra ela própria, se ela quisesse. olhou pra sua casa, e pra luz amarela, como um templo cansado de abrigar aquelas fantasias, deuses e epopeias. de Atenas a Zeus, pouco importa, o escudo, o peso, a égide. era o momento de deixar o estar só e a solidão se abraçarem sem medo. foram muitas lutas pra que ela saísse vitoriosa na guerra contra essa versão de si. mas já não eram mais batalhas pela guerra de ninguém.
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